01/09/2008

SIDNEY LUMET

De acordo com a Enciclopédia de Hollywood, Sidney Lumet é um dos mais prolíficos cineastas da Era Moderna. Desde o início de sua carreira em 1957, Lumet costuma dirigir dois filmes por ano, e o volume de sua obra ultrapassa 50 filmes.

Lumet acredita que filmes são uma forma de arte, sendo este um dos aspectos que o levou ao cinema:
"O tamanho da repercussão de um filme, está diretamente ligada à sua qualidade."

Sua vasta filmografia inclui sucessos unânimes como 12 Homens e uma Sentença (12 Angry Men, 1957), Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, 1975), Rede de Intrigas (Network, 1976) e O Veredito (The Verdict, 1982), todos com indicações ao Oscar de melhor direção.

Lumet possui uma enorme habilidade para atrair grandes atores a seus projetos. Tendo começado a carreira como ator, Lumet ficou conhecido como um "diretor de atores" e, através dos anos, trabalhou com grandes talentos.

Geralmente, o elenco de seus filmes costuma incluir atores que empregam o "method acting" (estilo realista e introspectivo, disseminado por Lee Strasberg em seu Actor's Studio). Um grande exemplo de seu trabalho com um "method actor", foi sua parceria com Al Pacino em Serpico (1973) e Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, 1975).

Um dos temas recorrentes de sua filmografia é o enfoque na fragilidade da justiça e da polícia diante da corrupção. Como uma das personalidades mais proeminêntes da cena cinematográfica de Nova York, Lumet mostra-se sensível com seus atores e com o rítmo da cidade, tornando-se "o mais antigo descendente da tradição neo-realista americana dos anos 50, comprometido com a responsbilidade étnica."

Outra característica do método do diretor é o clima de espontaniedade nas filmagens, que em sua maioria, ocorrem em locações. Sua narrativa visual objetiva e vigorosa, a atenção no trabalho com os atores e a utilização da camera como uma ferramenta de acesso aos temas, tornaram Sidney Lumet e sua obra, simplesmente extraordinários.

Ambos entenderam ser essencial que Lumet assumisse a direção. 12 Homens e uma Sentença (12 Angry Men, 1957) foi o primeiro longa-metragem de Lumet para o cinema e até hoje, é considerado um de seus melhores trabalhos.

A repercussão do filme possibilitou ao cineasta, oferecer suporte à uma geração de diretores que buscavam a transição da TV para o cinema. Desde então, Lumet tem dirigido sua atenção para diferentes projetos idealistas, adaptações literárias de peças e romances, produções grandiosas e comédias de humor-negro estilo novaiorquino.

Em1959, dirigiu Marlon Brando e Joanne Woodward em Vidas em Fuga (The Fugitive Kind), basedo na peça de Tennessee Williams, A Descida de Orfeu (Orpheus Descending). Um ano depois, filmou Panorama Visto da Ponte (A View From the Bridge, 1961), um drama psicológico escrito por Arthur Miller. A seguir, levou Eugene O'Neill ao cinema numa versão de Longa Jornada Noite Adentro (Long Day's Journey Into Night, 1962).

Katharine Hepburn recebeu uma indicação ao Oscar e foi premiada no Festival de Cannes junto a Ralph Richardson, Jason Robards e Dean Stockwell. O filme foi aclamado como um dos dez melhores do ano pelo The New York Times.

Em 2008, O Homem do Prego foi selecionado pela Biblioteca do Congresso para preservação no United States National Film Registry, por sua significância cultural e histórica.


A pesar da fraca peformance comercial, ao longo dos anos, Limite de Segurança firmou-se como um registro do terror da época e como um manifesto contra as armas nucleares.

Como vários outros trabalhos de Lumet, o filme mostra uma convicção de que, "eventualmente, a razão pode vencer conflitos sociais e que lei e justiça prevalecerão - ou não.

Seu ensemble cast, inclui Candice Bergen, Joan Hackett, Elizabeth Hartman, Shirley Knight, Jessica Walter, Kathleen Widdoes, Joanna Pettet e Hal Holbrook.

Por 49 anos, O Grupo permaneceu ausente em home video. Seu lançamento em DVD só ocorreu em 2009.

O thriller de espionagem Chamada Para um Morto (The Deadly Affair, 1967), foi baseado em Call For The Dead (1961), primeiro livro do britânico John Le Carré com seu personagem George Smiley, renomeado no fime como Charles Dobbs e interpretado por James Mason. Também no elenco, Harry Andrews, Simone Signoret e Maximilian Schell.

O estilo visual do filme ficou marcado pela fotografia de Freddie Young, criador de uma técnica conhecida como "flashing" ou "pre-fogging", caracterizada pela pré-exposição controlada do negativo colorido em pouca luz, criando uma alternância na matiz da película.

Chamada Para Um Morto foi o primeiro filme a utilizar esta técnica que viria a influênciar renomados cinematógrafos como Vilmos Zsigmond (Contatos Imediatos).



O documentário King: a Filmed Record... Montgomery To Memphis (1970), aborda a biografia de Martin Luther King, Jr. apresentado em formato cine-jornalístico incluindo trechos de gravações feitas pelo próprio King e narrado por personalidades como Paul Newman, Joanne Woodward, James Earl Jones, Clarence Williams III, Burt Lancaster, Ben Gazzara, Charlton Heston e Harry Belafonte.

Lançado nos cinemas como um evento cinematográfico único, com exibição limitada, o documentário tinha a duração recorde de mais de 3 horas. O preço do ingresso era o dobro do normal e toda a renda foi doada ao Fundo Especial Dr. Martin Luther King Jr. Mais tarde, foi exibido nacionalmente na televisão (versão integral, com poucos intervalos) e posteriormente lançado em home-video, mas sem as narrações e reduzido para 1 hora e 43 minutos.



Baseado no bestseller de Lawrence Sanders sobre um roubo audacioso, O Golpe de John Anderson (The Anderson Tapes, 1971) foi o primeiro filme a abordar a invasão de privacidade por agências governamentais através da tecnologia de vigilância moderna. Este tema passou a ser muito explorado pelo cinema após o notório escândalo de espionagem do partido republicano no Caso Watergate.

Filmado em locações da cidade de Nova York, O Golpe de John Anderson foi fundamental para a carreira de Connery, distanciando-o de seu famoso personagem, James Bond. Também foi o primeiro destaque de Christopher Walken.

Por outro lado, Lumet teve problemas com a Columbia Pictures devido a fuga de Anderson no final. Tal desfecho prejudicaria sua performance comercial nos cinemas e na TV, por não punir os infratores da lei.


A temática do idealismo jovem derrotado pela desesperança e pela corrupção das instituições sociais, inspiraram o diretor a realizar obras marcantes, socialmente realistas, que definiram de vez a posição de Sidney Lumet como um dos maiores cineastas de sua geração.

Produzido por Dino De Laurentis, Serpico (1973) foi o primeiro de quatro filmes instigantes dirigidos por Lumet na década de 70. Esta história sobre poder e traição dentro do Departamento de Polícia de Nova York tem como tema central, a perda da inocência diante da corrupção.

Trabalhando com Lumet pela primeira vez, Al Pacino (indicado ao Oscar e vencedor do Globo de Ouro) protagoniza a história verídica do policial Frank Serpico na selva urbana da Nova York do início da década de 70.

Diferente de seus colegas, Serpico recusa-se a participar do esquema de corrupção do departamento, alimentado pelo dinheiro extorquido dos criminosos.

Inflexível na caracterização do personagem e sua época, Serpico apresenta uma justificativa política extraordinária. A história da corrupção cívica é pertinente a qualquer período, presente na formação da chamada, "civilização".

Nesse sentido, Serpico mantém-se um docudrama não-datado, com apelo à todas as platéias.


Baseado no suspense policial de Agatha Christie, a produção britânica Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express, 1974), é um mistério a ser resolvido pelo notório detetive belga, Hercule Poirot (Albert Finney).

Requisitado por Bianchi (Martin Balsam), diretor da compania ferroviária e seu amigo, Poirot investiga o assassinato de um dos passageiros, Mr. Ratchett (Richard Widmark), um magnata americano.

O elenco reúne o maior número de personagens suspeitos envolvidos num caso de assassinato:

Agatha Christie sempre demonstrou insatisfação sobre as adaptações de suas obras feitas nos anos 60, e assim, recusou a permissão para mais uma adaptação. Para convencer a autora, o produtor John Brabourne requisitou a ajuda do presidente da EMI Films, que contava com a influência poderosa de seu sogro, o Lord Mountbatten of Burma (membro da Família Real Britânica). Por fim, a autora cedeu ao pedido da realeza.

O resultado final agradou Agatha Christie que fez apenas um comentário: "O filme foi muito bem feito, exceto pela caracterização de Albert Finney como Poirot. Sempre descrevi meu detetive como o dono do bigode mais impecável da Inglaterra. Não vi isso no filme. Uma pena."


Numa tarde quente no Brooklyn, um banco é tomado por assaltantes. O plano era simples, os ladrões, inexperiêntes, e o resultado, um desastre. O assalto deveria durar apenas dez minutos. Meia hora depois, a polícia havia cercado o prédio. Quatro horas depois, uma multidão tomava as ruas. Oito horas depois, o fato era notícia em todas as redes de TV. Doze horas depois, estava tudo acabado. Este foi um dia que entrou para a história de Nova York.

Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, 1975) foi inspirado em artigos publicados no New York Daily News sobre os eventos ocorridos no Brooklyn, Nova York, no dia 22 de agosto de 1972, quando John "Sonny" Wojtowicz (Al Pacino) e Salvatore Naturile (John Cazale) invadiram um banco, fizeram reféns, causaram um grande tumulto e negociaram com a polícia por quase doze horas.

Em meio ao caos, Sonny revela à polícia que o objetivo do assalto era conseguir dinheiro para uma cirurgia de mudança de sexo de sua "esposa", Leon Schermer (Chris Sarandon), fato que aumenta a tensão no evento ao causar reações adversas na população presente.

Mais uma vez, Sidney Lumet demonstra seu talento para contar histórias socialmente relevântes com temáticas controversas, como o homossexualismo, as manifestações anti-sociais e o poder da mídia.

O filme é inteiramente rodado em apenas uma locação, não possui trilha-sonora, é apoiado por um roteiro brilhante e pelas poderosas atuações de Al Pacino e John Cazale.

Presente em todas as seqüências, Pacino desfere monólogos que indiretamente abordam valores da sociedade, preconceitos e a mídia. Numa cena clássica, Sonny exalta a multidão aos berros, lembrando que é um veterano de guerra (em época de extrema oposição à Guerra do Vietnam) e quase provocando um tumulto com o brado da contra-cultura, "Attica!" (referente ao massacre durante uma revolta na penitenciária de Attica em 1971).
Diferente do parceiro, John Cazale é um mistério total para o público, interpretando mais um personagem complexo e sombrio, com atitudes sem motivação aparente.


No ano seguinte, Lumet emplacou mais um clássico do cinema americano da década de 70.
O brilhante roteiro de Paddy Chayefsky é conduzido com maestria por Lumet em seu característico estilo direto, num rítmo semelhante à linguagem telejornalística apoiado pelas excelentes atuações de William Holden, Robert Duvall, Peter Finch, Faye Dunaway, Ned Beatty e Beatrice Straight.

Mais do que uma crítica cínica sobre o jornalismo televisivo dos anos 70, o filme já fazia uma análise de como aceitamos e consumimos o sensacionalismo ao qual somos expostos diáriamente. A pesar de datados, a visão da TV da época e a mensagem do filme continuam pertinentes, possibilitando uma releitura com base na internet e nos novos meios de comunicação que só reforçaram tal aspecto.

O fato desencadeia uma explosão na audiência de seu programa que passa a explorar o comportamento eloquênte (quase insano) de Beale como a principal atração de um grande espetáculo. Diante de sua platéia (no estúdio e pela televisão), Beale transforma-se num tipo de profeta sensacionalista, quase criando uma nova religião.

É dele uma das frases mais famosas do cinema dos anos 70. Durante a exibição (ao vivo) de seu programa, um Beale transtornado pede a todos que cheguem à janela e berrem "I'm mad as hell and I'm not gonna take it anymore!" (Estou muito puto e não vou mais aturar isso!). O pedido é acatado pelos milhares de fãs, e nesta noite, Nova York testemunha um fenômeno cultural.

Além do sucesso comercial, Rede de Intrigas foi aclamado pela crítica como "ultrajante e ao mesmo tempo, brilhante e cruelmente engraçado". Entre outros, foi premiado com 4 Oscars - melhor ator (Peter Finch), atriz (Faye Dunaway), atriz co-adjuvante (Beatrice Straight) e roteiro original (Paddy Chayefsky) - e 4 Globos de Ouro - melhor filme, ator dramático (Peter Finch), atriz dramática (Faye Dunaway), diretor (Lumet) e roteiro (Paddy Chayefsky).

Ao longo dos anos, Rede de Intrigas foi cada vez mais reconhecido como uma obra de extrema relevância cinematográfica. Em 2000, foi selecionado para preservação no United States National Film Registry pela Biblioteca do Congresso pela importância cultural e histórica (quarto filme de Lumet a conquistar esta honra). Em 2002, integrou o "Hall da Fama" do Producers Guild of America como uma obra que "estabeleceu um novo patamar na história do cinema americano". Em 2006, o roteiro de Chayefsky foi incluído na lista dos dez melhores roteiros de todos os tempos do Writers Guild of America. Em 2007, o filme ocupava a 64 posição na lista dos 100 melhores filmes americanos do AFI - American Film Institute.

Mesmo adaptado pelo próprio Shaffer - autor de peças como The Royal Hunt of the Sun (1964) e Amadeus (1979), ambos adaptados para o cinema - o filme foi mal recebido pelos críticos teatrais com alegações de que o espírito da peça estaria ausênte no filme. No entanto, Equus recebeu três indicações ao Oscar: melhor ator (Richard Burton), ator co-adjuvante (Peter Firth) e roteiro adaptado (Shaffer).

Em 1978, Lumet arriscou-se na adaptação de um musical da Broadway. Produzido pela Universal Pictures e pela Motown Productions (renomado selo musical de grandes artistas da soul music), O Mágico Inesquecível (The Wiz) revisita a fábula do Mágico de Oz numa linguagem urbana, apoiada por um elenco composto integralmente por grandes artistas "afro-americanos" como Diana Ross, Michael Jackson, Lena Horne e Richard Pryor. A adaptação musical foi supervisionada por Quincy Jones, com novas canções adicionadas ao repertório.

Em seu lançamento nos cinemas, O Mágico Inesquecível foi um retumbante fracasso comercial e artístico, encerrando de vez o segmento de filmes direcionados ao público negro americano iniciado no início dos anos 70 (conhecido como "blaxpoitation"). Mesmo assim, ainda foi reconhecido pela Academia com indicações ao Oscar de melhor direção de arte, figurino, trilha-sonora original e fotografia.

No ano seguinte, Sidney Lumet retornou com mais um drama criminal passado em Nova York.

O filme foi baseado no livro homônimo de Robert Daley (ex-comissário de polícia de NY) sobre a história do detetive Robert Leuci que, infiltrou-se, registrou e testemunhou contra 52 membros da Unidade de Investigações Especiais, resultando em várias condenações. Originalmente, seria dirigido por Brian De Palma e estrelado por Robert De Niro, mas a Orion Pictures optou pela visão realista de Lumet.

Interessado no projeto, o diretor aceitou mediante duas condições: o protagonista não poderia ser interpretado por um ator famoso (para assim, evitar associações com outros personagens) e a duração do filme deveria beirar 3 horas para que todos os aspectos da história fossem incluídos.

Há anos, Lumet sentia-se incomodado pela abordagem bi-dimensional da polícia utilizada em Serpico, declarando que esta seria uma oportunidade para se retratar do erro.

O Príncipe da Cidade foi orçado em US$ 10 milhões, mas o diretor conseguiu realizá-lo por US$ 8.6 milhões. Contudo, o filme não se pagou, faturando apenas US$ 8.1 milhões.

Polêmica a parte, O Príncipe da Cidade recebeu indicações ao Oscar de melhor roteiro adaptado, e por sua autênticidade, o diretor do DEA (Drug Enforcement Agency) pediu a Lumet uma cópia do filme para exibição em seu programa de treinamento.

Bem recebido pela crítica, o filme apresenta algumas diferenças em relação ao original. Uma delas prejudicou muito sua performance comercial. A cena do beijo entre Caine e Reeves (presente apenas no filme) foi vaiada numa exibição-teste em Denver. O fato foi noticiado numa matéria da revista Time, revelando uma surpresa-chave do filme que acabou custando US$ 10 milhões na bilheteria.


O elenco também conta com as excelentes atuações de Charlotte Rampling, Jack Warden e James Mason.

Passados mais de 20 anos, Sidney Lumet mostrou-se um competente diretor de densos psicodramas. Suas obras mais aclamadas envolvem personagens em crise. Desde seu primeiro filme, 12 Homens e uma Sentença (1957) até O Veredito, sua galeria de personagens é movida pela busca obssessiva da verdade em conflito com a culpa do passado.

Segundo Lumet, "não é o objetivo da busca que me intriga, e sim, a condição obssessiva."

A eficiência (e a ousadia) discreta de Lumet se faz presente neste estudo sombrio de personagem que faz clara referência ao notório caso Karen Ann Quinlan, um marco na história do direito individual de decidir sobre a própria morte, sem precedente na lei americana.


Daniel cresce atormentado pela memória de seus pais e pela crença de uma condenação injusta. Estudante universitário na Nova York da década de 60, torna-se ativista do movimento de protesto contra a Guerra do Vietnam.

A delicada temática, resultou num tímido lançamento nos cinemas para evitar controvérsia. Afinal, Daniel trata um assunto que os americanos preferem ignorar.

O título faz referência ao slogan "Garbo Talks", usado para promover o filme Anna Christie (1930), onde a charmosa voz da atriz foi ouvida pela primeira vez.


Os Donos do Poder (Power, 1986) enfoca como a corrupção política é usada como uma ferramenta de poder com graves consequências tanto para quem a exerce quanto àqueles influenciados ou controlados por ela.

Lumet precisava de um grande astro para seu protagonista e encontrou em Richard Gere, o intéreprete ideal de Pete St. John, um assessor de mídia extremamente agressivo e inescrupuloso que comanda as campanhas eleitorais de candidatos à altos cargos governamentais.

Também no elenco, Julie Christie, Gene Hackman e Denzel Washington, ainda em início de carreira.


O fraco e pretencioso roteiro, falha ao narrar uma história de mistério com pouquíssimo suspense. Mesmo sendo um dos trabalhos "menores" do diretor, o filme ainda vale pelas interpretações de Jane Fonda (indicada ao Oscar de melhor atriz) e Jeff Bridges.
Dois anos se passaram até o lançamento de O Peso de um Passado (Running on Empty, 1988), um emocionante melodrama com background político, sobre a família Pope (Judd Hirsch, Christine Lahti, River Phoenix e Jonas Abry), perseguida há anos pelo FBI devido ao ativismo político radical dos pais contra a Guerra do Vietnam nos anos 70.

O excelente elenco reunido por Lumet, destaca um dos melhores trabalhos do falecido River Phoenix (indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro de melhor ator co-adjuvante).

Considerado um dos melhores filmes do ano, O Peso de um Passado tem raízes em fatos verídicos. O drama do casal Pope, foi livremente inspirado na história de Bill Ayers e Bernadine Dohrn, líderes do grupo radical Weather Underground, que sabotou uma instalação militar produtora de napalm nos anos 70.

O veterano trambiqueiro Jessie McMullen (Sean Connery), é rejeitado por seu agora reabilitado filho, Vito (Dustin Hoffman) e idolatrado pelo neto Adam (Matthew Broderick), um jovem cientista universitário com futuro promissor.
Jessie, Vito e Adam, representam 3 gerações dos McMullen, uma família que tem o crime correndo nas veias.

Repleto de reviravoltas, o roteiro de Vincent Patrick (adaptado de seu próprio livro) flui como uma peça, enfocando um conceito ambíguo: a "honra" entre ladrões.

Thriller criminal ou drama familiar? Negócios de Família abrange os dois gêneros com sucesso.

O violento e sombrio contexto de Q&A - Sem Lei, Sem Justiça (Q&A, 1990), mostra um lado mais perverso do diretor, equilibrado com maestria neste thriller criminal.

O roteiro foi escrito por Lumet em parceria com Edwin Torres, juiz da Suprema Corte de Nova York e autor do livro homônio de 1977 no qual o filme é baseado.

A trama gira em torno de Al Reilly (Timothy Hutton), um jovem assistente da promotoria, com a tarefa de investigar um caso de homicídio envolvendo o detetive Mike Brennan (Nick Nolte), uma lenda do departamento de polícia, com ligações no crime organizado e na corrupção policial.

Para deter Brennan, Reilley se vê obrigado a utilizar as mesmas táticas sórdidas de seu oponênte, aprofundando-se cada vez mais no submundo do crime, questionando seus valores morais diante de sua ambição e a obssessão do cumprimento do dever. A chave do conflito pode estar numa perigosa aliança com o chefão porto-riquenho, Roberto Texador (Armand Assante), inimigo mortal de Brennan e ponte para um passado o qual Reilley prefere não enxergar.


Após entrar na década de 90 com o pé direito, Lumet dá duas escorregadas em seus projetos seguintes.



Sombras da Lei (Night Falls on Manhattan, 1997) marca o retorno da verve crítica de Lumet em mais um excelente drama criminal envolvendo o gabinete da promotoria geral de Nova York, esquemas de corrupção, intrigas, traições e a perseverança da integridade moral.

Adaptado por Lumet a partir do livro Tainted Evidence, de Robert Daley, o elenco do filme conta com Andy Garcia, Ian Holm, James Gandolfini e Richard Dreyfuss.


A pesar do original ser um filme contemporâneo da geração do diretor, a escolha de Lumet para o projeto foi, no mínimo, questionável. Os tempos mudaram, Nova York mudou. Comparações são inevitáveis, e realmente, o rítmo imposto por Lumet ao filme ficou bem abaixo da tensão de Cassavetes. Além disso, Sharon Stone também não possui o carisma e a intensidade de Rowlands.

Diferente de seu antecessor, a versão de Lumet foi um enorme fracasso, rejeitado por crítica e público e com um prejuízo de US$ 25 milhões.


De qualquer forma, decidiu encarar o júri ao invés de testemunhar sobre anos de criminalidade e delatar assossiados e familiares.

Um dos aspectos que marcou o caso, foi DiNorscio ter realizado sua própria defesa, comportando-se como um pitoresco advogado estilo "wiseguy". Grande parte dos testemunhos foram transcritos diretamente dos registros oficiais do julgamento.

Lumet declarou que, mais uma vez, seu interesse no projeto era contar uma história sobre honra em conflito com a verdade e a busca de justiça, mesmo que do ponto de vista dos criminosos. No entanto, o diretor se perde ao longo de uma narrativa arrastada. Sob Suspeita foi mais um duro fracasso comercial.

Posicionando-se como um dos melhores exemplares de sua filmografia singular, Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto (Before the Devil Knows You're Dead, 2007) é um drama tão intenso e insano, que chega a surpreender os admiradores de Lumet.

Esta densa história de tragédia familiar faz jús a seu título, derivado do ditado irlandes "May you be in heaven a full half-hour before the devil knows you're dead" (Que você chegue ao Céu meia-hora antes que o diabo saiba que você está morto).

O roteiro muito bem estruturado em linguagem não-linear e a fotografia generosa que explora todos os ângulos possíveis, criam uma atmosfera perfeita para as sensacionais interpretações de Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei e Albert Finney.

Após percorrer o circuito dos festivais internacionais de cinema, Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto teve sua estréia americana no Festival de Nova York, onde foi aclamado como um dos melhores filmes de 2007.


Idealista, contemporâneo, crítico e acima de tudo, novaiorquino, Sidney Lumet é um dos grandes talentos do cinema americano. Um diretor apaixonado pela temática, mas de forma imparcial, sem militância, sempre a serviço da história e seus personagens.

A pesar de alguns deslizes (como qualquer outro cineasta genial), o conjunto de sua obra é altamente conceituado junto à opinião crítica e do público. Sensível e inteligente, Lumet sempre mostrou coragem e bom gôsto na abordagem de seus temas, versatilidade ao experimentar diferentes técnicas e estilos, e habilidade para lidar com o elenco.

Em 9 de abril de 2011, Sidney Lumet sucumbiu ao linfoma e faleceu em sua residência em Manhattan, Nova York. Após sua morte, inúmeros tributos homenagearam seu legado à cidade retratada em vários de seus filmes.